Opinião · 27 de outubro de 2026
Bienal do Capão 2026: Quando os egos são maiores do que Freamunde
Há quem confunda servir Freamunde com servir-se de Freamunde. E quando o protagonismo pessoal se sobrepõe ao interesse coletivo, quem perde é sempre a nossa terra.
2026 deveria ser ano de Bienal do Capão de Freamunde.
Deveria ser mais uma oportunidade para celebrar as nossas tradições, promover um dos maiores símbolos da nossa identidade, dinamizar o comércio local e demonstrar aquilo de que tantas vezes nos orgulhamos: a força do associativismo freamundense.
Mas, ao que tudo indica, este ano não haverá Bienal.
E o mais lamentável é que, segundo as informações que nos chegaram, não será por falta de história, tradição, associações ou pessoas capazes de organizar o evento.
Será por divergências entre representantes das próprias associações envolvidas.
A confirmar-se, é simplesmente vergonhoso.
Quando o umbigo é maior do que a terra
Freamunde tem uma longa tradição associativa. Temos instituições centenárias, associações culturais, recreativas e desportivas, e pessoas que dedicam incontáveis horas do seu tempo à comunidade, muitas vezes sem qualquer reconhecimento.
Esse é o associativismo que merece respeito.
Mas existe uma diferença substancial entre trabalhar por uma causa e utilizar uma causa como palco de afirmação pessoal.
As associações não são propriedade dos seus dirigentes. Não existem para alimentar egos, satisfazer vaidades ou disputar protagonismos.
Existem para servir os fins para os quais foram criadas.
Se as divergências pessoais e as disputas de protagonismo estiverem efetivamente na origem da não realização da Bienal, então estaremos perante um exemplo lamentável de como alguns conseguem colocar o próprio umbigo à frente dos interesses de toda uma comunidade.
Porque, convenhamos, ninguém é assim tão importante.
Nenhum presidente, dirigente ou representante associativo é maior do que Freamunde.
Nenhuma associação, individualmente considerada, é dona das nossas tradições.
E nenhum desentendimento deveria ser suficiente para comprometer um evento que pertence, acima de tudo, aos freamundenses.
Freamunde não pode ficar refém de jogos de vaidade.
O associativismo não é uma competição de egos
A Bienal do Capão nasceu precisamente da capacidade de várias associações trabalharem em conjunto.
Na edição de 2024, a própria Junta de Freguesia destacou o associativismo e as pessoas como a verdadeira essência do evento.
É, por isso, particularmente irónico que aquilo que foi apresentado como um exemplo de união possa agora ser comprometido pela incapacidade de entendimento entre alguns dos seus representantes.
Naturalmente, divergências existem. Fazem parte de qualquer organização e são legítimas.
O que não é aceitável é que a incapacidade de as ultrapassar acabe por prejudicar toda uma cidade.
Quem assume responsabilidades associativas tem de compreender que representar uma instituição exige maturidade, compromisso e capacidade de colocar o interesse coletivo acima das ambições pessoais.
Se não existe essa capacidade, talvez seja altura de questionar se determinadas pessoas estão efetivamente preparadas para representar as instituições que dirigem.
Porque liderar não é aparecer na fotografia, discursar perante uma plateia ou reclamar os louros de uma iniciativa.
Liderar é também saber ouvir, negociar, ceder e, quando necessário, dar um passo atrás.
Sobretudo quando o que está em causa é maior do que nós.
Quem perde é Freamunde. Mais ninguém.
Enquanto se discutem posições, protagonismos e eventuais incompatibilidades, Freamunde perde uma oportunidade de promover a sua história e as suas tradições.
Perdem os comerciantes, que poderiam beneficiar da afluência de visitantes.
Perdem as associações, que deixam de ter uma oportunidade de mostrar o seu trabalho.
Perdem os freamundenses, privados de um evento que celebra a sua identidade.
E perde a própria cidade, que deixa passar mais uma oportunidade de afirmação cultural e de dinamização económica.
Tudo isto num contexto em que tanto se fala da necessidade de revitalizar o centro urbano, apoiar o comércio local e valorizar aquilo que nos distingue.
É difícil exigir desenvolvimento quando nem sequer conseguimos garantir a continuidade das iniciativas que já construímos.
E seria ainda mais difícil aceitar que essa incapacidade resultasse de questões de ego e protagonismo.
Freamunde merece mais. Freamunde em Primeiro Lugar
Merece dirigentes capazes de dialogar, instituições capazes de cooperar e responsáveis que compreendam que o reconhecimento deve ser consequência do trabalho realizado, não o objetivo que o motiva.
E a Junta de Freguesia? Nada tem a esclarecer?
A Bienal do Capão não é um evento privado sem relevância para a comunidade.
É uma iniciativa de interesse público, associada à valorização de um dos maiores símbolos culturais e gastronómicos de Freamunde, que contou, nas edições anteriores, com o envolvimento e apoio da Junta de Freguesia.
Por isso, perante a aparente não realização da edição de 2026, impõe-se uma pergunta simples:
Porque não se realiza a Bienal do Capão de Freamunde em 2026?
Os freamundenses merecem uma resposta clara.
Houve efetivamente divergências entre as associações envolvidas? Qual foi a natureza dessas divergências? Foram desenvolvidos esforços para encontrar uma solução? Existiram outros impedimentos, nomeadamente financeiros, logísticos ou organizativos?
E, sobretudo, o que será feito para garantir que a Bienal não desaparece do calendário cultural de Freamunde?
Não se exige à Junta de Freguesia que resolva todos os conflitos entre associações. Exige-se, isso sim, que esclareça publicamente o que aconteceu, qual foi o seu papel e que diligências desenvolveu para salvaguardar a realização de um evento desta importância.
O silêncio não esclarece. A ausência de explicações não dignifica as instituições. E os freamundenses não devem ter de se contentar com rumores e conversas de bastidores.
Freamunde acima de tudo. Inclusive dos egos.
Não se pretende desvalorizar o trabalho extraordinário que tantas pessoas desenvolvem nas nossas associações. Muito pelo contrário.
É precisamente por respeito a esse trabalho que situações como esta merecem ser questionadas.
O associativismo freamundense é demasiado importante para ficar condicionado por disputas pessoais, caso estas se confirmem.
As instituições permanecem. Os dirigentes passam.
As tradições pertencem à comunidade, não a quem temporariamente ocupa um cargo.
E Freamunde continuará a existir muito depois de os atuais protagonistas deixarem de o ser.
Que ninguém se esqueça disso.
Porque, no final, pouco importa quem tinha razão numa discussão, quem queria mandar mais ou quem pretendia ficar com os louros.
Se o resultado é a não realização da Bienal do Capão, ninguém ganhou.
Perdeu Freamunde.
E isso deveria envergonhar todos aqueles que, tendo responsabilidades na organização, não conseguiram encontrar uma solução.
Fica, por isso, um pedido público à Junta de Freguesia de Freamunde:
Esclareça os freamundenses sobre os motivos da não realização da Bienal do Capão em 2026.
Com transparência, objetividade e sem rodeios.
Porque Freamunde não precisa de mais protagonistas.
Precisa de pessoas que a coloquem em primeiro lugar.
Freamundense de berço. Bairrista por convicção. Independente por princípio.
